Camisas de time se tornam tendência na comunidade LGBTQIA+ e dominam festas e boates

Camisas de time se tornam tendência na comunidade LGBTQIA+ e dominam festas e boates

Por muito tempo, a camisa de futebol foi associada a uma masculinidade heteronormativa e ao universo dos estádios, tradicionalmente marcados pelo machismo e pela exclusão da comunidade LGBTQIA+. No entanto, esse cenário está mudando. Atualmente, a peça esportiva se tornou um item fashion de destaque em festas e eventos voltados ao público queer, aparecendo tanto nos modelos tradicionais quanto em versões customizadas.

O fenômeno tem sido observado por produtores de eventos, como Fernando Alves, responsável pela festa “Me Chame de Pop”, no Rio de Janeiro. Segundo ele, a tendência explodiu nos últimos anos.

“Até meus amigos que nem ligam para futebol estão usando. É uma forma de se destacar com uma mistura de fetiche e estilo. Faz muito sucesso”, afirma Fernando.

O sucesso do estilo foi impulsionado por artistas internacionais que incorporaram a camisa esportiva ao seu visual. Um dos marcos foi a ação publicitária do Spotify em 2023, quando o Barcelona jogou um clássico contra o Real Madrid vestindo um uniforme estampado com o nome do álbum Motomami, de Rosalía. Além disso, celebridades como Troye Sivan viralizaram ao usarem camisas de clubes, como o uniforme do Palmeiras, em vídeos no TikTok.

No Brasil, DJs como Felipe Malfoy já adotaram a peça como parte do figurino, inclusive em versões customizadas, como croppeds da seleção brasileira.

“A tendência está crescendo, principalmente em festas de música latina”, pontua Malfoy.

Blokecore e o impacto da cultura digital

O ressurgimento da camisa de time como um item de moda pode ser atribuído à ascensão do blokecore, um estilo que combina roupas esportivas com peças casuais e que ganhou força nas redes sociais desde a pandemia de Covid-19. A pesquisadora de moda Rachel Vieira vê essa tendência como um reflexo da nova geração, que desafia normas e ressignifica símbolos historicamente ligados ao machismo.

“A camisa de futebol sempre foi um item presente no Brasil, principalmente no subúrbio. O que vemos hoje é a quebra de um paradigma. Quem usa não precisa mais entender tudo sobre futebol. A peça agora é vista como um ícone de estilo e muitas vezes customizada”, explica Vieira.

A pesquisadora também destaca que o boom da tendência na comunidade LGBTQIA+ pode ser interpretado como um ato político. Durante a Copa do Mundo de 2022, realizada no Catar, um país com histórico de violações aos direitos LGBTQIA+, a camisa de futebol se tornou um símbolo de resistência.

O futebol como espaço de pertencimento

A relação entre a comunidade LGBTQIA+ e o futebol sempre foi marcada pela exclusão. Historicamente, os homens gays foram desencorajados a participar desse universo, enfrentando preconceito e discriminação nos estádios e nas rodas de conversa sobre o esporte.

Para Lucas Corrêa, analista de marketing de 28 anos, usar camisas de time em festas LGBTQIA+ representa um resgate de identidade.

“Os homens gays sempre foram considerados os ‘inimigos número um’ do futebol. Usar a camisa do meu time é uma forma de mostrar que o esporte também pode ser nosso, sem precisar reafirmar masculinidade para ser aceito”, reflete Corrêa.

Já o professor e sociólogo Angelo Brandelli, da PUC-RS, interpreta o fenômeno como uma tentativa da comunidade LGBTQIA+ de se apropriar de espaços antes negados.

“O futebol está historicamente ligado a uma masculinidade tóxica, onde casos de racismo, homofobia e transfobia são recorrentes. Quando membros da comunidade queer vestem camisas de clubes, estão demonstrando que também pertencem a esse espaço e que o esporte pode ser inclusivo”, afirma Brandelli.

O sociólogo ressalta ainda que, para alguns, a adoção das camisas pode ser uma estratégia para minimizar o estigma da sexualidade, já que símbolos tradicionalmente masculinos, como o uniforme esportivo, podem oferecer uma camada de proteção contra preconceitos.

Estilo e autoestima: a nova relação com a camisa de futebol

Para Gabriel Amaral, de 20 anos, o uso das camisas de time em festas LGBTQIA+ começou por influência da moda, mas rapidamente se tornou uma forma de autoafirmação. Ele cresceu em uma família conservadora e, ao entender sua identidade como homem gay, passou a ressignificar seu estilo.

Entre suas peças favoritas estão uma camisa do Flamengo, seu time do coração, e um modelo estilizado da Inter de Milão. Para ele, a peça oferece tanto um escudo contra a discriminação nas ruas quanto um diferencial fashion nas baladas.

“As camisas de futebol são vistas como peças heteronormativas, mas estão sendo ressignificadas pela comunidade queer, especialmente por conta do TikTok. Hoje, vejo essa roupa como um símbolo de estilo e autenticidade”, compartilha Gabriel.

Além da expressão de identidade, a tendência também tem um impacto inusitado nas interações sociais. Segundo Gabriel, a peça chama a atenção nos eventos.

“Costumo ir à balada todos os meses e percebo que, quando estou usando camisa de time, sou muito mais cantado”, brinca.

O futuro da moda esportiva na cultura LGBTQIA+

A ascensão da camisa de futebol nas festas LGBTQIA+ representa uma mudança significativa na forma como a moda é utilizada como ferramenta de ressignificação cultural. O que antes era visto como um símbolo de exclusão agora se tornou um ícone de pertencimento e autoexpressão.

Com o avanço das discussões sobre inclusão no esporte e a influência crescente da moda digital, a tendência promete continuar evoluindo, seja em sua forma original ou através de customizações cada vez mais ousadas.

Seja para protestar, celebrar ou simplesmente arrasar no look da balada, as camisas de futebol deixaram os gramados para conquistar definitivamente as pistas de dança.

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