A Hungria se tornou o primeiro país da União Europeia a adotar uma medida histórica que proíbe a realização das marchas do orgulho LGBTQIA+. A decisão foi tomada após uma emenda na Lei de Reunião, que visa proibir manifestações relacionadas ao movimento, justificando-se pela “proteção infantil”. A nova lei foi aprovada no parlamento húngaro e gerou um intenso debate político e social, refletindo um profundo divórcio entre os setores conservadores e liberais da sociedade.
O governo de Viktor Orbán, que já é conhecido por suas políticas conservadoras, foi um dos principais defensores da alteração na legislação. A justificativa para a proibição, segundo as autoridades, seria a proteção das crianças. Máté Kocsis, líder do Fidesz (partido de Orbán), declarou que o governo visa evitar que crianças tenham acesso a conteúdos que ele considera impróprios nas manifestações do orgulho LGBTQIA+. Ele disse que, como pai de três filhos, não gostaria que eles estivessem expostos a esse tipo de conteúdo. “Proteger as crianças é uma prioridade em todas as circunstâncias”, afirmou Kocsis.
A proposta foi amplamente apoiada por setores conservadores, que veem a medida como uma defesa contra a “ideologia woke”, que trata de questões sociais e raciais. Orbán, ao reforçar sua posição em suas redes sociais, afirmou: “Hoje, votamos para proibir reuniões que violem as leis de proteção à criança. Na Hungria, o direito da criança ao desenvolvimento físico, mental, intelectual e moral saudável vem em primeiro lugar.”
No entanto, a decisão foi amplamente contestada por vários grupos da sociedade civil e ativistas de direitos humanos. O grupo Budapeste Pride, responsável pela principal marcha LGBTQIA+ do país, criticou a ação como uma medida autoritária e classificou-a como um retrocesso significativo nos direitos civis. “Isso não é proteção infantil, isso é fascismo,” afirmou a organização em um comunicado. Segundo o grupo, a proibição das marchas seria parte de uma estratégia do governo para angariar apoio dos setores mais extremistas da direita húngara, especialmente com as eleições de 2026 se aproximando.
A polarização política em relação à proibição também foi evidente nas reações do público. Pesquisas indicam que, enquanto uma parte considerável da população húngara apoia a medida, com 36% de apoio à proibição, a maioria (56%) se opõe à decisão e deseja que as marchas continuem. Em Budapeste, a capital do país, o apoio ao orgulho LGBTQIA+ é ainda mais forte, com 78% dos residentes defendendo a manutenção das marchas públicas. Esses números refletem uma oposição acentuada entre as grandes cidades, onde as visões liberais prevalecem, e o restante do país, onde as opiniões conservadoras dominam.
Apesar da proibição, a cidade de Budapeste se comprometeu a manter viva a tradição da marcha do orgulho. O prefeito da cidade, Gergely Karácsony, expressou sua determinação de resistir à nova legislação, afirmando que o orgulho acontecerá em Budapeste em junho deste ano, e que pode até ser maior do que nunca. Karácsony criticou o governo de Orbán, acusando-o de usar a questão das marchas como uma forma de desviar a atenção de problemas mais urgentes, como a crise econômica e social que o país enfrenta.
A primeira marcha do orgulho LGBTQIA+ na Hungria aconteceu em 1997, seis anos após o fim da Cortina de Ferro, que marcou a queda da União Soviética e a transição da Hungria para a democracia. Desde então, as marchas se tornaram um símbolo importante da luta pelos direitos da comunidade LGBTQIA+ no país. No entanto, quase 30 anos depois, a Hungria se tornou o primeiro membro da União Europeia a adotar uma lei proibindo tais manifestações.
A aprovação da lei não só divide a opinião pública sobre a marcha, mas também reflete uma crescente polarização na Hungria. De um lado, a legislação é vista como uma defesa das tradições familiares e da proteção infantil. Do outro, é considerada uma violação dos direitos fundamentais de liberdade de expressão e de reunião pacífica. Este embate sobre os direitos LGBTQIA+ na Hungria não é uma questão isolada, mas parte de um debate mais amplo sobre a crescente ascensão de líderes autoritários na Europa e a luta pela igualdade de direitos para todos os cidadãos.
Embora o governo tenha implementado uma proibição, as manifestações e a resistência à medida devem continuar a crescer, especialmente com o apoio significativo das populações urbanas e dos movimentos sociais. As próximas eleições podem desempenhar um papel crucial na redefinição das políticas do governo húngaro, especialmente em relação aos direitos LGBTQIA+.
A decisão da Hungria de proibir a marcha do orgulho LGBTQIA+ representa um retrocesso significativo para os direitos humanos e a liberdade de expressão no país. Em um momento de crescente polarização política, o futuro da comunidade LGBTQIA+ na Hungria e a resistência das grandes cidades, como Budapeste, serão determinantes para o avanço ou retrocesso dos direitos civis no país.